"Naquele dia vi meu avô meio diferente. Tinha o olhar enfocado ao longe, quase ausente. Penso agora que talvez pressentisse que era o último dia de sua vida.
Aproximando-me dele disse:_ Bom dia, vovô!
Ele estendeu a sua mão em silêncio, puxou-me para sentar ao seu lado no sofá e depois de uns instantes, um pouco misteriosos, exclamou:
_ Hoje é dia de inventário!
_ Inventário? – perguntei surpreso.
_ Sim, inventário de tantas coisas perdidas! Sempre tive desejos de fazer muitas coisas que nunca fiz por não ter vontade suficiente para sobrepor-me à minha preguiça. Lembro também daquela menina que amei, em silêncio, por tantos anos até que um dia ela foi embora da cidade sem eu saber. Também estive a ponto de estudar engenharia, mas não me atrevi.
_ Lembro-me de tantos momentos em que eu fiz mal aos outros por não ter a coragem necessária para falar, para dizer o que pensava e outras vezes em que a valentia me faltou para ser leal.
_ Foram poucas as vezes que tenho dito para sua avó que a amo e que a amo com loucura. Tantas coisas não concluídas, tantos amores não declarados, tantas oportunidades perdidas.
Logo, com certa alegria, continuou:
_ Sabe o que eu tenho descoberto nestes dias? Sabe qual é o pecado mais grave na vida de um homem?
A pergunta me surpreendeu e só atinei em dizer, com certa insegurança:
_ Não tenho pensado nisso ainda, mas suponho que seja matar outros seres humanos, odiar o próximo e desejar-lhe o mal.
Olhou-me com afeto e disse-me:
_ Penso que o pecado mais grave na vida do ser humano é o pecado da omissão e o mais doloroso é descobrir as coisas perdidas sem ter tempo de encontrá-las e recuperá-las.
No dia seguinte, depois do enterro do meu avô, voltei para casa para fazer, com calma, o meu próprio “inventário” das coisas perdidas, das coisas não ditas, do afeto não manifestado ““...
(autor desconhecido)
