6. Doadores de sofrimento
O símbolo mais sagrado na cidade de Oklahoma, em Oklahoma, é uma árvore: um vasto olmo norte-americano de 80 anos que faz muita sombra. Turistas percorrem quilômetros para vê-lo. Pessoas posam para fotos debaixo dele. Arboristas cuidadosamente o protegem. Ele enfeita pôsteres e papéis de carta. Outras árvores ficam maiores, mais cheias, até mais verdes. Mas nenhuma recebe o mesmo carinho. A cidade valoriza a árvore não por sua aparência, mas por sua resistência.
Ela resistiu aos bombardeios sofridos por aquela cidade.
Timothy McVeigh estacionou seu caminhão-bomba a apenas alguns metros dela. Sua maldade matou 168 pessoas, feriu outras 850, destruiu o edifício federal Alfred P. Murrah e cobriu a árvore de escombros. Ninguém esperava que ela sobrevivesse. Ninguém, na verdade, parou para pensar na árvore coberta de pó e sem galhos.
Até que ela começou a brotar.
Brotos passavam espremidos por sua casca destruída; folhas verdes empurravam a fuligem cinzenta. A vida ressurgiu de um campo marcado pela morte. As pessoas perceberam. A árvore era um modelo da resiliência que as vítimas desejavam. Por isso elas deram um nome ao olmo: a Arvore Sobrevivente.1
Os Timothy McVeighs ainda abalam nossos mundos. Eles ainda, sem razão, inexplicavelmente nos mutilam e deixam cicatrizes. Queremos imitar a árvore — sobreviver ao mal, sobrepormo-nos à ruína. Mas como?
Davi pode nos dar algumas idéias. Quando Saul dá uma de McVeigh e entra no mundo de Davi, Davi se lança no deserto, onde encontra refúgio entre as cavernas próximas ao Mar Morto. Várias centenas de legalistas o seguem. O mesmo acontece com Saul. E, em duas cenas dramáticas no deserto, Davi exemplifica como transmitir graça à pessoa que não lhe dá outra coisa senão sofrimento.
Primeira cena. Saul faz sinal para que seus homens parem. Eles param. Três mil soldados param de marchar enquanto seu rei desce do cavalo e sobe a encosta da montanha.
Dá para fritar um ovo no chão da região de En-Gedi. Os raios de sol ferem como punhais o pescoço dos soldados. Lagartos alojam-se por trás das pedras. Escorpiões ficam na lama. E cobras, como Saul, procuram descanso na caverna.
Saul entra na caverna "para fazer suas necessidades. Davi e seus soldados estavam bem no fundo da caverna" (1 Samuel 24:3). Com os olhos embaçados por causa do sol do deserto, o rei não consegue perceber os vultos silenciosos que se alinham nas paredes.
Mas você não sabe que eles vêem o rei. Enquanto Saul atende ao chamado da natureza, inúmeros olhos arregalam-se. A mente desses homens voa e as mãos estendem-se para pegar lanças. Um golpe da espada levará a tirania de Saul ao fim e eles não terão mais de fugir. Mas Davi faz sinal para que seus homens se contenham. Ele esgueira-se pela parede, desembainha sua faca e corta não a carne, mas o manto de Saul. Davi então volta para o fundo da caverna.
Os homens de Davi não podem acreditar no que seu líder fez. Nem o próprio Davi. Contudo, seus sentimentos não refletem os de seus homens. Eles acham que ele fez muito pouco; ele acha que já fez coisa demais. Em vez de tripudiar, ele arrepende-se.
Mas Davi sentiu bater-lhe o coração de remorso por ter cortado uma ponta do manto de Saul, e então disse a seus soldados: "Que o SENHOR me livre de fazer tal coisa a meu senhor, de erguer a mão contra ele, pois é o ungido do SENHOR" (24:5,6).
Saul sai da caverna e Davi logo o segue. Ele levanta a ponta de suas vestes e, com todas as letras, grita: "Eu poderia tê-lo matado, mas não o matei".
Saul ergue os olhos, espantado, e pergunta em voz alta: "Quando um homem encontra um inimigo e o deixa ir sem fazer-lhe mal?" (24:19).
Davi faz isso. Mais de uma vez.
Alguns capítulos adiante, Saul está, novamente, perseguindo Davi. Davi volta a bancar o esperto para o lado de Saul. Enquanto o acampamento do rei dorme, o atrevido Davi e um soldado esgueiram-se pelos soldados até que alcançam o rei, que roncava. O soldado implora: "Hoje Deus entregou o seu inimigo nas suas mãos. Agora deixe que eu crave a lança nele até o chão, com um só golpe; não precisarei de outro" (26:8).
Mas Davi não deixa. Em vez de tirar a vida de Saul, ele tira-lhe a lança e o jarro com água e foge do acampamento. A uma distância segura, ele acorda Saul e os soldados com um aviso: "Ele [o Senhor] te entregou nas minhas mãos hoje, mas eu não levantaria a mão contra o ungido do SENHOR" (26:23).
Mais uma vez, Davi poupa a vida de Saul.
Mais uma vez, Davi revela uma mente cheia de Deus. Quem domina seus pensamentos? "O SENHOR recompensa... o ungido do SENHOR... que o SENHOR também considere" (26:23-24).
Mais uma vez, pensamos nas coisas que promovem dor em nossa própria vida. Uma coisa é transmitir graça aos amigos, mas transmitir graça àqueles que nos causam sofrimento? Você conseguiria? Se passasse alguns minutos seguidos com o Darth Vader, o vilão de Guerra nas Estrelas, de seus dias, você conseguiria imitar Davi?
A vingança faz sua atenção se prender aos momentos mais feios da vida.
Talvez você pudesse. Algumas pessoas parecem ser agraciadas com glândulas de misericórdia. Elas escondem perdão, sem nunca guardar rancores ou revelar suas feridas. Para outros de nós (para a maioria de nós?) é difícil perdoar nossos Sauls.
Perdoamos os que nos ofendem uma vez, lembre-se. Repudiamos os que tomam nossa vaga no estacionamento, os que não honram compromissos e até os que batem carteiras.
Podemos passar batido pelos pequenos delitos, mas e os crimes capitais? Os que nos ofendem de novo? Os Sauls que levam nossa juventude, nossa aposentadoria ou nossa saúde?
Se um patife desses buscasse sombra era sua caverna ou estivesse dormindo aos seus pés... você faria o que Davi fez? Você conseguiria perdoar o canalha que o machucou?
Não conseguir fazer isso talvez seja fatal. "O ressentimento mata o insensato e a inveja destrói o tolo" (Jó 5:2).
A vingança faz sua atenção prender-se aos momentos mais feios da vida. A desforra faz seus olhos concentrarem-se em eventos dolorosos de seu passado. É para lá que você quer olhar? Contar e reviver suas feridas fará de você uma pessoa melhor? De forma alguma. Isso irá destruí-lo.
Estou me lembrando de uma velha comédia de costumes. Joe queixa-se com Jerry sobre o hábito irritante de um amigo comum. O rapaz bate com o dedo no peito de Joe enquanto fala, o que enerva Joe.
Os que gostam de destruir os inimigos precisam de dois túmulos.
Por isso ele resolve se vingar. Ele mostra para Jerry uma garrafinha com uma mistura de nitroglicerina altamente explosiva amarrada a um barbante. Ele explica: "Vou usar isso aqui em volta do meu pescoço, deixando a garrafa pendurada bem no lugar onde ele fica batendo com o dedo. Da próxima vez em que puser o dedo no meu peito, ele vai pagar caro".
Nem de longe Joe passará, certo? Os que gostam de destruir os inimigos precisam de dois túmulos. "A ira se aloja no íntimo dos tolos" (Eclesiastes 7:9). Olho por olho passa a ser pescoço por pescoço e emprego por emprego e reputação por reputação. Quando isso pára? Pára quando uma pessoa imita a mente de Davi controlada por Deus.
Ele enfrentou Saul como enfrentou Golias — colocando-se diante de Deus ainda mais. Quando os soldados na caverna instigaram Davi a matar Saul, veja no que Davi estava pensando: "Que o SENHOR me livre de fazer tal coisa a meu senhor, de erguer a mão contra ele, pois é o ungido do SENHOR" (1 Samuel 24:6).
Quando gritou para Saul da entrada da caverna, "Davi inclinou-se, rosto em terra" (24:8). Depois reiterou sua convicção: "Não erguerei a mão contra meu senhor, pois ele é o ungido do SENHOR" (24:10).
Na segunda cena, durante o ataque ao acampamento de noite, Davi manteve sua convicção: "Quem pode levantar a mão contra o ungido do SENHOR e permanecer inocente?" (26:9).
Nessas duas cenas, contei em seis as vezes em que Davi chamou Saul de "o ungido do SENHOR". Você consegue pensar em outro termo que Davi poderia ter usado? Desmancha-prazeres e miolo mole vêm à minha mente. Mas não à mente de Davi. Ele não via Saul como o inimigo, mas como o ungido. Recusou-se a ver o homem que o fazia sofrer como algo menos que um filho de Deus. Davi não aprovou o comportamento de Saul; ele simplesmente reconheceu o dono de Saul — Deus. Davi filtrou o que via acerca de Saul usando a peneira do céu. O rei ainda pertencia a Deus, e isso deu esperança a Davi.
Alguns anos atrás, um rottweiler atacou nosso filhote de Golden Retriever em um canil. O animal desprezível pulou sua jaula e entrou na de Molly e quase a matou. Ele deixou-a com vários cortes e com a orelha pendurada. Meus sentimentos para com aquele vira-lata não eram nada parecidos com os de Davi. Se nos deixassem, os dois, em uma caverna, apenas um sairia vivo. Escrevi uma carta para o dono do cachorro, insistindo que ele o colocasse para dormir.
Mas quando mostrei a carta à dona do canil, ela pediu que eu reconsiderasse.
— O que aquele cachorro fez foi horrível, mas eu ainda o estou treinando. Não terminei meu trabalho ainda.
Deus diria o mesmo sobre o rottweiler que atacou você.
— O que ele fez foi inconcebível, inaceitável, imperdoável, mas não terminei meu trabalho ainda.
Seus inimigos ainda figuram no plano de Deus. O pulso deles é a prova: Deus não desistiu deles. Talvez eles estejam fora da vontade de Deus, mas não estão fora do alcance de Deus. Você honra Deus quando os vê, não como fracassos de Deus, mas como projetos de Deus.
Além disso, quem nos encarregou do serviço de vingança? Davi entendeu isso. Da entrada da caverna, ele declarou: "O SENHOR julgue entre mim e ti. Vingue ele os males que tens feito contra mim, mas não levantarei a mão contra ti... O SENHOR seja o juiz e nos julgue"
(24:12,15).
Veja seus inimigos não como falhas de Deus, mas como projetos dele.
Deus ocupa o único assento na corte suprema do céu. Ele usa a beca e se nega a dividir o martelo. Por essa razão, Paulo escreveu: "Nunca procurem se vingar, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito:'Minha é a vingança; eu retribuirei', diz o Senhor" (Romanos 12:19).
A vingança tira Deus da equação. Os que fazem justiça pelas próprias mãos tomam o lugar de Deus. "Não tenho certeza de que o Senhor poderá cuidar disso. O Senhor pode castigar muito pouco ou devagar demais. Deixe esse assunto nas minhas mãos, obrigado."
É isso o que você quer dizer? Não foi assim com Jesus. Ninguém tinha uma noção mais clara do que era certo e errado do que o Filho perfeito de Deus. Não obstante, "quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça" (1 Pedro 2:23).
Somente Deus determina sentenças exatas. Impomos castigos leves ou severos demais. Deus faz a justiça perfeita. Cabe a ele a vingança. Deixe seus inimigos nas mãos de Deus.
Ao fazer isso, você não estará endossando a má conduta deles.Você pode odiar o que alguém fez sem se deixar consumir pelo ódio. Perdoar não é justificar.
Perdoar também não é fingir. Davi não encobriu ou evitou o pecado de Saul. Ele tratou-o de forma direta. Ele não evitou o problema, mas evitou Saul."[Saul] voltou para casa, mas Davi e seus soldados foram para a fortaleza" (1 Samuel 24:22).
Faça o mesmo. Transmita graça, mas, se for necessário, mantenha distância. Você pode perdoar o marido abusivo sem ter de viver com ele.
Perdão é optar por ver o ofensor com olhos diferentes.
Seja rápido em mostrar compaixão pelo pastor imoral. Mas não tenha pressa em dar-lhe um púlpito. A sociedade pode conceder graça e condenações ao mesmo tempo. Dê uma segunda chance àquele que molesta crianças, mas mantenha-o longe de parquinhos de diversões.
Perdão não é loucura.
Perdão é, em sua essência, optar por ver o ofensor com olhos diferentes. Quando alguns missionários morávios levaram a mensagem de Deus aos esquimós, eles sofreram para encontrar uma palavra para perdão na língua nativa. Por fim, chegaram a essa difícil opção de 24 letras: issumagijoujungnainermik. Esta formidável junção de letras é literalmente traduzida como "não há mais como pensar nisso".2
Perdoar é seguir em frente, não pensar mais na ofensa. Você não justifica, endossa ou aceita o ofensor. Você simplesmente coloca o que pensa sobre ele no caminho que leva ao céu. Você vê seu inimigo como filho de Deus e a vingança como algo que cabe a Deus.
A propósito, como nós, recipientes da graça, podemos fazer menos que isso? Será que temos coragem de pedir graça a Deus quando nos recusamos a transmiti-la? Esse é um grande tema de discussão nas Escrituras. Jesus era duro com os pecadores que se recusavam a perdoar outros pecadores. Você se lembra da história que Jesus contou sobre o servo cuja dívida de milhões acabara de ser perdoada que se recusou a perdoar uma dívida de alguns reais? Ele provocou a ira de Deus: "Servo mau, cancelei toda a sua dívida... Você não devia ter tido misericórdia... como eu tive de você?" (Mateus 18:32,33).
Em suma, transmitimos graça porque recebemos graça. Sobrevivemos porque imitamos a Arvore Sobrevivente. Nossas raízes vão além da área que foi atingida por bombardeios. Usamos a umidade que vai além da explosão. Cavamos cada vez mais fundo até extrairmos umidade da misericórdia de Deus.
Nós, como Saul, recebemos graça.
Nós, como Davi, podemos transmiti-la gratuitamente.
pc@projetoz.com.br
cristocentro@googlegroups.com
VERSÍCULOS DO DIA!!!
sábado, 5 de agosto de 2017
DEVOCIONAL - Max Luccado - Derubando Golias - Capítulo 06
Postado por Bárbara Helena
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário